Curitiba quer enterrar 120 km de fios: o que muda para a cidade, os condomínios e o meio ambiente?
O projeto de R$ 1,2 bilhão para modernizar a rede elétrica de Curitiba abre uma discussão que vai além da paisagem urbana: infraestrutura, sustentabilidade, árvores e qualidade de vida.
Curitiba está avançando em uma proposta que pode transformar a paisagem urbana da cidade: enterrar cerca de 120 quilômetros de fios elétricos e de telecomunicações. A iniciativa, estimada em R$ 1,2 bilhão, prevê a retirada de parte da fiação aérea e a modernização da infraestrutura urbana.
A proposta chama atenção pela dimensão do investimento e pelo potencial de mudar a relação entre a cidade, suas ruas e seus espaços verdes. Mas existe uma pergunta importante nessa transformação: enterrar os fios significa, necessariamente, uma cidade mais sustentável?
A resposta exige olhar para além da aparência.
Uma cidade com menos fios à vista
A fiação aérea faz parte da paisagem de muitas cidades brasileiras. Em Curitiba, o projeto prevê priorizar regiões mais adensadas, turísticas, históricas e áreas consideradas vulneráveis a problemas na rede. A estimativa divulgada é de 120 km de cabos subterrâneos, com investimento de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, em um modelo que poderá envolver uma parceria público-privada (PPP).
Entre os resultados esperados estão:
Redução da poluição visual.
Menor exposição da rede a temporais e quedas de árvores.
Redução de riscos associados a acidentes, incêndios e furtos.
Melhoria da organização da infraestrutura urbana.
Esses benefícios foram apontados nas reportagens sobre o projeto.
Para quem caminha pelas ruas, a mudança pode ser bastante perceptível. Fachadas, árvores e edifícios deixam de disputar espaço visual com uma quantidade excessiva de cabos.
Mas uma cidade bonita também precisa ser uma cidade ambientalmente responsável.
O impacto ambiental
O enterramento de fios pode trazer benefícios ambientais, mas não é uma solução automaticamente sustentável. O resultado depende de como as obras serão planejadas, executadas e mantidas.
1. Menos interferência na paisagem e nas árvores
Um dos pontos mais relevantes é a relação entre a rede elétrica e a arborização urbana.
Em muitos locais, árvores precisam ser podadas para evitar contato com fios. A retirada da fiação aérea pode diminuir esse tipo de conflito, permitindo um planejamento mais adequado da vegetação.
Isso pode favorecer:
A preservação de árvores maduras.
A redução de podas inadequadas.
A melhoria da paisagem urbana.
A continuidade de corredores verdes.
No entanto, enterrar os fios não significa que todas as árvores estarão protegidas. A abertura de valas, a passagem de tubulações e a instalação de equipamentos podem atingir raízes, compactar o solo e comprometer a vegetação existente.
Por isso, o projeto deve considerar a arborização desde o planejamento, e não apenas depois que a obra começa.
2. Obras subterrâneas também geram impactos
Para colocar os cabos no subsolo, é necessário escavar ruas, calçadas e outros espaços urbanos.
Esse processo pode envolver:
Movimentação de terra.
Geração de entulho.
Uso de máquinas e combustíveis.
Emissão de gases de efeito estufa.
Alterações na drenagem do solo.
Interferências em redes de água, esgoto e outras infraestruturas.
Ou seja, existe uma diferença entre o resultado visual depois da obra e o impacto ambiental causado durante sua execução.
Uma cidade sustentável precisa avaliar os dois.
3. O subsolo também precisa ser planejado
O espaço subterrâneo das cidades já é ocupado por diversas redes: água, esgoto, gás, drenagem, energia e telecomunicações.
A implantação de novos cabos exige compatibilização com essa infraestrutura. Em áreas antigas ou muito adensadas, isso pode representar um desafio técnico significativo.
Além disso, o projeto deve prever acesso para manutenção. Uma rede subterrânea que exige grandes intervenções para cada reparo pode gerar novos custos e impactos ao longo do tempo.
A sustentabilidade não está apenas em esconder os fios, mas em construir uma infraestrutura eficiente e duradoura.
4. Mais árvores, sombra e qualidade de vida
Curitiba possui uma identidade urbana associada a parques, áreas verdes e arborização. A cidade abriga remanescentes de vegetação da Mata Atlântica, incluindo araucárias, além de outras espécies que compõem sua paisagem.
Nesse contexto, o projeto pode ser uma oportunidade para repensar as ruas como espaços de convivência.
Se a retirada da fiação vier acompanhada de:
Preservação de árvores existentes.
Plantio de espécies adequadas.
Calçadas acessíveis.
Melhoria da drenagem.
Mais sombra para pedestres.
Recuperação de áreas degradadas.
O benefício ambiental poderá ser muito maior do que a simples redução da poluição visual.
A cidade do futuro não deve apenas esconder seus fios. Deve cuidar melhor do espaço que existe entre os edifícios.
E os condomínios, como entram nessa transformação?
Para quem mora em condomínio, a mudança pode gerar efeitos importantes no cotidiano.
A rede elétrica e de telecomunicações está diretamente ligada ao funcionamento dos edifícios, portões, sistemas de segurança, elevadores, internet e demais serviços.
Durante as obras, moradores e síndicos poderão precisar lidar com intervenções em calçadas, acessos, estacionamentos e áreas próximas aos empreendimentos.
Por isso, a comunicação entre poder público, concessionárias, administradoras e condomínios será essencial.
Uma obra dessa dimensão não pode ser pensada apenas do ponto de vista da engenharia. Ela também precisa considerar as pessoas que vivem nos locais onde a infraestrutura será modificada.
O que os condomínios devem observar?
Como serão comunicadas as etapas das obras?
Haverá interferência nos acessos aos edifícios?
Como será preservada a arborização próxima?
Quem será responsável pelos reparos em calçadas e áreas afetadas?
Como serão tratados os equipamentos e redes internas dos condomínios?
Essas questões fazem parte da relação entre infraestrutura urbana e qualidade de vida.
Uma cidade mais bonita, mais verde e mais humana
Curitiba tem a oportunidade de transformar um projeto de infraestrutura em algo maior: uma reflexão sobre como queremos viver nas cidades.
Menos fios podem significar mais destaque para as árvores, para os edifícios e para os espaços públicos. Mas o verdadeiro avanço acontece quando a modernização vem acompanhada de cuidado ambiental, planejamento e respeito à população.
Porque uma cidade sustentável não é apenas aquela que esconde sua infraestrutura. É aquela que consegue equilibrar tecnologia, natureza e qualidade de vida.
E essa transformação começa muito antes de qualquer fio ser enterrado.
Para acompanhar
O projeto de Curitiba foi noticiado em agosto de 2026 e prevê a implantação de aproximadamente 120 km de rede subterrânea, com investimento estimado em R$ 1,2 bilhão. A proposta também poderá servir como referência para a criação de um marco regulatório sobre o enterramento de fios no país.
As informações sobre cronograma detalhado, trechos de execução, licenciamento ambiental e início das obras devem ser confirmadas junto aos órgãos responsáveis antes de serem divulgadas como definitivas.
Vamos acompanhar jutnos: https://www.curitiba.pr.gov.br









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